O chão vai de menos a mais infinito e é feito de uma miríade de quadrados que mais não são do que outros tantos rectângulos coloridos de preto e de branco. O mosaico que se forma espelha as alternâncias do espírito e o reflexo das luzes da rua transforma-se em vozes altas e pujantes, gritos líquidos, barcos num rio.
Eu não tenho ninguém à minha espera.
As casas estão apagadas, vazias de gente ou de quem se queira acusar, como se não delas viesse a alvura que encandeia as águas e as dilui, fotão a fotão. São castelos que raiam novas altitudes e sobrevoam negros abismos, crateras fundas.
Daqui, da outra margem, vejo cães que fulminam ausências e desejam torpes massas ou duros ventos. Qualquer coisa.
Das chaminés sai vapor d'água e a chuva ebulida cai sobre o ébano dos cabelos e o livro dos retratos. O som que inspiro é seco, fecha-me as vias, faz-me roxo como a vela que o lençol apagou e transpira de mim vagas e cristas e muitas areias.
A água está fria.
Quarta-feira, Agosto 27, 2008
Segunda-feira, Agosto 04, 2008
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
Domingo, Outubro 07, 2007
O Funeral
Uma noite escura na floresta.
Os pirilampos revolvem em tudo o que se desenha defronte das minhas pupilas e impedem que adormeça e percorra outras estradas e outras cidades e outros caminhos até encontrar o mar e toda a gente que me conhece e é como eu.
A clareira é limpa e cheia de nada e não há problema porque eu estou bem, eu estou bem, e consigo ver tudo o que está à minha frente porque é noite e é na noite que me sinto. O céu cobre-me os braços e aquece-me o peito e sou feto enrolado sobre mim mesmo à espera da hora certa.
Chuva começa a cair e os planetas sobre as nuvens desenham espectáculos e as nuvens não lá estão e eu vejo tudo, eu vejo tudo, voam os pirilampos e as estrelas e o fogo que deles emana.
E ao meu lado tenho cervas e marmotas e melros negros e corvos e cagarros e a Arca de Noé que me veio fazer festa e dizer que depois da noite o Sol volta outra vez e as nuvens reaparecem, os ruídos são outros, as clareiras povoam-se num sem-espaço que não mais termina, estarei lá eu e tanto povo e tantas dores.
Eu não quero o Sol.
Eu estou bem.
Estou bem assim.
Os pirilampos revolvem em tudo o que se desenha defronte das minhas pupilas e impedem que adormeça e percorra outras estradas e outras cidades e outros caminhos até encontrar o mar e toda a gente que me conhece e é como eu.
A clareira é limpa e cheia de nada e não há problema porque eu estou bem, eu estou bem, e consigo ver tudo o que está à minha frente porque é noite e é na noite que me sinto. O céu cobre-me os braços e aquece-me o peito e sou feto enrolado sobre mim mesmo à espera da hora certa.
Chuva começa a cair e os planetas sobre as nuvens desenham espectáculos e as nuvens não lá estão e eu vejo tudo, eu vejo tudo, voam os pirilampos e as estrelas e o fogo que deles emana.
E ao meu lado tenho cervas e marmotas e melros negros e corvos e cagarros e a Arca de Noé que me veio fazer festa e dizer que depois da noite o Sol volta outra vez e as nuvens reaparecem, os ruídos são outros, as clareiras povoam-se num sem-espaço que não mais termina, estarei lá eu e tanto povo e tantas dores.
Eu não quero o Sol.
Eu estou bem.
Estou bem assim.
Domingo, Setembro 16, 2007
Muros.
O ar sai mais puro do que entra, tenho o peito aos pulos e este cubo onde vivo é o mais infinito que nos separa.
Há palavras que não ouso dizer - penso-as. E a formação do conceito é assaz veemente e chega lá, ao outro lado, e tu verbaliza-las, porque é assim que tem de ser. Só aí me apercebo de que o teu pedido é a minha própria vontade original, e assim, simplesmente, não mais faço do que o que me apraz, porque o teu desejo é imagem do meu deleite. É uma Psicologia invertida que só eu sei explicar, porque para ti o mundo é feito de pão e manteiga, torradas pela manhã, chocolate antes do jantar e condutas tão evidentes quanto a teu ver subreptícias. Gosto de me rir com estas pequenas vitórias porque a competição me está nas veias e tu sabe-lo mais que ninguém.
E quando me dizes que o tempo que passas comigo são gotas de luz e pequenas pérolas, sei bem que quem o inventou fui eu, como se me aprouvesse pensares que não existe Felicidade, mas antes e apenas momentos felizes.
Há palavras que não ouso dizer - penso-as. E a formação do conceito é assaz veemente e chega lá, ao outro lado, e tu verbaliza-las, porque é assim que tem de ser. Só aí me apercebo de que o teu pedido é a minha própria vontade original, e assim, simplesmente, não mais faço do que o que me apraz, porque o teu desejo é imagem do meu deleite. É uma Psicologia invertida que só eu sei explicar, porque para ti o mundo é feito de pão e manteiga, torradas pela manhã, chocolate antes do jantar e condutas tão evidentes quanto a teu ver subreptícias. Gosto de me rir com estas pequenas vitórias porque a competição me está nas veias e tu sabe-lo mais que ninguém.
E quando me dizes que o tempo que passas comigo são gotas de luz e pequenas pérolas, sei bem que quem o inventou fui eu, como se me aprouvesse pensares que não existe Felicidade, mas antes e apenas momentos felizes.
Sábado, Setembro 15, 2007
Aurora.
Estive anos à espera de um funeral que mais não foi do que o do meu próprio coração. Foram décadas e milénios numa queda perpétua, uma escorregadela perigosa em terra seca, movediça, um deslize que não foi súbito nem repente - antes grande arrastamento. Passei noites a fio a examinar-me, já sem lágrimas nem dor: torpe, transparente, insistindo em desaparecer quando remédio muito mais simples teria sido fazer-me existir permanentemente.
Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.
Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.
Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.
Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.
Sábado, Fevereiro 18, 2006
Evolution.
Pois é, isto chegou ao fim. Whoa, e eu a pensar que viveria preso a ti até ao fim dos meus dias e que esta era a maior noite que alguma vez teria de enfrentar.
Sim, a dor foi imensa.
Perene.
Fisicamente insuportável.
Tu foste o ar que eu respirei durante dias e dias e odisseias a fio.
Foste uma gota de lume a remoer-me as entranhas e fizeste-me pensar que eras a razão de eu estar aqui.
Perdi partes de mim tendo como certo que seriam um pequeno Dom para ti. E que permaneceriam em ti.
E a minha Alma e o meu Corpo estiveram presos à tua Alma e ao teu Corpo.
Eu sofri demasiado. Deixei fugir em vão tanto tempo e tanta Vida.
Não, não foram grilhões nem cordas que me prenderam a ti. Fui eu próprio. O Eu, o anti-Eu, e tudo junto.
Sinto por mim, mas sinto o céntuplo por ti. E já nem espero nada.
Porque a minha dor foi a tua indiferença.
O que eu inspirei de ti foi o que expiraste de mim.
Eu acendi-te o fogo, tu correste a apagá-lo.
E só agora vejo que não foste tu a tirar-me o que perdi. Simplesmente não aceitaste o que eu te queria dar.
Mea culpa.
Mas sabes que mais?
Tudo passa. Tudo é vaidade das vaidades.
E agradeço-te por me teres feito perceber que SER NOITE, embora tão mais conveniente, dá muito mais trabalho do que ESTAR VIVO.
Sim, a dor foi imensa.
Perene.
Fisicamente insuportável.
Tu foste o ar que eu respirei durante dias e dias e odisseias a fio.
Foste uma gota de lume a remoer-me as entranhas e fizeste-me pensar que eras a razão de eu estar aqui.
Perdi partes de mim tendo como certo que seriam um pequeno Dom para ti. E que permaneceriam em ti.
E a minha Alma e o meu Corpo estiveram presos à tua Alma e ao teu Corpo.
Eu sofri demasiado. Deixei fugir em vão tanto tempo e tanta Vida.
Não, não foram grilhões nem cordas que me prenderam a ti. Fui eu próprio. O Eu, o anti-Eu, e tudo junto.
Sinto por mim, mas sinto o céntuplo por ti. E já nem espero nada.
Porque a minha dor foi a tua indiferença.
O que eu inspirei de ti foi o que expiraste de mim.
Eu acendi-te o fogo, tu correste a apagá-lo.
E só agora vejo que não foste tu a tirar-me o que perdi. Simplesmente não aceitaste o que eu te queria dar.
Mea culpa.
Mas sabes que mais?
Tudo passa. Tudo é vaidade das vaidades.
E agradeço-te por me teres feito perceber que SER NOITE, embora tão mais conveniente, dá muito mais trabalho do que ESTAR VIVO.
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