Estive anos à espera de um funeral que mais não foi do que o do meu próprio coração. Foram décadas e milénios numa queda perpétua, uma escorregadela perigosa em terra seca, movediça, um deslize que não foi súbito nem repente - antes grande arrastamento. Passei noites a fio a examinar-me, já sem lágrimas nem dor: torpe, transparente, insistindo em desaparecer quando remédio muito mais simples teria sido fazer-me existir permanentemente.
Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.
Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.
Sábado, Setembro 15, 2007
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