domingo, outubro 07, 2007

O Funeral

Uma noite escura na floresta.

Os pirilampos revolvem em tudo o que se desenha defronte das minhas pupilas e impedem que adormeça e percorra outras estradas e outras cidades e outros caminhos até encontrar o mar e toda a gente que me conhece e é como eu.

A clareira é limpa e cheia de nada e não há problema porque eu estou bem, eu estou bem, e consigo ver tudo o que está à minha frente porque é noite e é na noite que me sinto. O céu cobre-me os braços e aquece-me o peito e sou feto enrolado sobre mim mesmo à espera da hora certa.

Chuva começa a cair e os planetas sobre as nuvens desenham espectáculos e as nuvens não lá estão e eu vejo tudo, eu vejo tudo, voam os pirilampos e as estrelas e o fogo que deles emana.

E ao meu lado tenho cervas e marmotas e melros negros e corvos e cagarros e a Arca de Noé que me veio fazer festa e dizer que depois da noite o Sol volta outra vez e as nuvens reaparecem, os ruídos são outros, as clareiras povoam-se num sem-espaço que não mais termina, estarei lá eu e tanto povo e tantas dores.

Eu não quero o Sol.

Eu estou bem.

Estou bem assim.