quinta-feira, novembro 08, 2007

domingo, outubro 07, 2007

O Funeral

Uma noite escura na floresta.

Os pirilampos revolvem em tudo o que se desenha defronte das minhas pupilas e impedem que adormeça e percorra outras estradas e outras cidades e outros caminhos até encontrar o mar e toda a gente que me conhece e é como eu.

A clareira é limpa e cheia de nada e não há problema porque eu estou bem, eu estou bem, e consigo ver tudo o que está à minha frente porque é noite e é na noite que me sinto. O céu cobre-me os braços e aquece-me o peito e sou feto enrolado sobre mim mesmo à espera da hora certa.

Chuva começa a cair e os planetas sobre as nuvens desenham espectáculos e as nuvens não lá estão e eu vejo tudo, eu vejo tudo, voam os pirilampos e as estrelas e o fogo que deles emana.

E ao meu lado tenho cervas e marmotas e melros negros e corvos e cagarros e a Arca de Noé que me veio fazer festa e dizer que depois da noite o Sol volta outra vez e as nuvens reaparecem, os ruídos são outros, as clareiras povoam-se num sem-espaço que não mais termina, estarei lá eu e tanto povo e tantas dores.

Eu não quero o Sol.

Eu estou bem.

Estou bem assim.

domingo, setembro 16, 2007

Muros.

O ar sai mais puro do que entra, tenho o peito aos pulos e este cubo onde vivo é o mais infinito que nos separa.

Há palavras que não ouso dizer - penso-as. E a formação do conceito é assaz veemente e chega lá, ao outro lado, e tu verbaliza-las, porque é assim que tem de ser. Só aí me apercebo de que o teu pedido é a minha própria vontade original, e assim, simplesmente, não mais faço do que o que me apraz, porque o teu desejo é imagem do meu deleite. É uma Psicologia invertida que só eu sei explicar, porque para ti o mundo é feito de pão e manteiga, torradas pela manhã, chocolate antes do jantar e condutas tão evidentes quanto a teu ver subreptícias. Gosto de me rir com estas pequenas vitórias porque a competição me está nas veias e tu sabe-lo mais que ninguém.

E quando me dizes que o tempo que passas comigo são gotas de luz e pequenas pérolas, sei bem que quem o inventou fui eu, como se me aprouvesse pensares que não existe Felicidade, mas antes e apenas momentos felizes.

sábado, setembro 15, 2007

Aurora.

Estive anos à espera de um funeral que mais não foi do que o do meu próprio coração. Foram décadas e milénios numa queda perpétua, uma escorregadela perigosa em terra seca, movediça, um deslize que não foi súbito nem repente - antes grande arrastamento. Passei noites a fio a examinar-me, já sem lágrimas nem dor: torpe, transparente, insistindo em desaparecer quando remédio muito mais simples teria sido fazer-me existir permanentemente.

Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.

Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.