sábado, julho 30, 2005

Água

Não, não consigo dormir.
Sinto-me como se em mim habitassem todas as razões para que o Mundo seja o que é.

A Palavra não é a arma mais poderosa e primitiva que o homem possui. Antes reside a nossa força no gesto, na concretização dos pequenos pedaços de uma alma que, embora se queira nobre e idílica, não passa do ar que temos no peito e da seiva que nos corre nas veias.

É por isso que, quando falo do fio de sal que me inunda a cara e me faz acreditar que é possível o esvaimento instantâneo e sem-tempo, lamento os pretéritos desta terra e todo um provir que é triste e desde sempre esvaziado por mim mesmo.

Vícios.

Vou dormir, estou cheio de sono.

Há coisas que uma pessoa realmente não merece ouvir.

quarta-feira, julho 27, 2005

Longe.

O mar no canto de um olho que, não obstante o sorriso ou a dureza do rosto, anuncia a desolação.

Seres não tu-próprio, mas um outro qualquer em ti.

Veres a luz no meio da funesta dor. Nunca o contrário.

O silêncio como o único som audível que emana da tua voz.

Uma flecha invisível que parte e te perfura a essência, cativando-te, simplesmente.

A perenidade de um instante a atormentar-te as noites e os dias.

Seres mais grande do que pequeno e mais instável do que o lume.

Saberes que nas grandes coisas são os pequenos pormenores que fazem a diferença.

Sentires o frio que gela e faz lembrar que a agonia é puro deleite.

Estares só e ainda assim albergares o Mundo em ti.

A pontada ardente de seres o último a chegar e o primeiro a partir.


E deixares alguém à espera sem sequer te aperceberes disso.