O ar sai mais puro do que entra, tenho o peito aos pulos e este cubo onde vivo é o mais infinito que nos separa.
Há palavras que não ouso dizer - penso-as. E a formação do conceito é assaz veemente e chega lá, ao outro lado, e tu verbaliza-las, porque é assim que tem de ser. Só aí me apercebo de que o teu pedido é a minha própria vontade original, e assim, simplesmente, não mais faço do que o que me apraz, porque o teu desejo é imagem do meu deleite. É uma Psicologia invertida que só eu sei explicar, porque para ti o mundo é feito de pão e manteiga, torradas pela manhã, chocolate antes do jantar e condutas tão evidentes quanto a teu ver subreptícias. Gosto de me rir com estas pequenas vitórias porque a competição me está nas veias e tu sabe-lo mais que ninguém.
E quando me dizes que o tempo que passas comigo são gotas de luz e pequenas pérolas, sei bem que quem o inventou fui eu, como se me aprouvesse pensares que não existe Felicidade, mas antes e apenas momentos felizes.
Domingo, Setembro 16, 2007
Sábado, Setembro 15, 2007
Aurora.
Estive anos à espera de um funeral que mais não foi do que o do meu próprio coração. Foram décadas e milénios numa queda perpétua, uma escorregadela perigosa em terra seca, movediça, um deslize que não foi súbito nem repente - antes grande arrastamento. Passei noites a fio a examinar-me, já sem lágrimas nem dor: torpe, transparente, insistindo em desaparecer quando remédio muito mais simples teria sido fazer-me existir permanentemente.
Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.
Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.
Hoje trago novos medos e outra clarividência. A dor, ao desaparecer, levou consigo a inspiração; as palavras deixaram de ser fortes e autónomas e passaram a depender de uma sintaxe que me cansa a passos largos. A noite negra e profunda deu lugar a pequenas alegrias diárias, momentâneas, daquelas que nos deixam um sorriso nos lábios e eriçam os pêlos do dorso, e não obstante sem o condão de cravar na alma o punhal da dor. Para sempre. Os dias são mais longos e repletos de hélio, hidrogénio, tungsténio, uma amálgama de luz que me seca os humores e me atira a antítese da Noite, a Presunçosa, Luciférica, a que me fez chegar aqui e desposar os seus mais grandes demónios.
Deixei-me de dores e outros que tais há muito tempo, há tantos meses. Hoje sou um outro eu-próprio, já não preciso da Noite nem do Fogo nem de nada que remeta a outros que não eu e o meu mundo inventado, e as minhas novas paixões, e o meu novo Amor.
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