Mas neste momento o Sol apaga-se no outro lado do globo e o céu é um negrume imenso e os meus dedos entrelaçados aquecem-me as mãos.
Estou cego, surdo e mudo de raiva.
E rogo ao Pai, se Ele existe, que me acalme esta dor e me faça ter mais olhos na nuca.
E sou gelo e peço lume numa eterna heresia.
E sinto um peso nas vísceras e um punhal cravado nas costas.
E tenho medo por ti e por mim.
E já nem sei o que dizer: a voz sai-me embargada e o pó das entranhas abafa-me o choro e enferruja-me os ossos.
E eu caio, caio, estou farto de aguentar em pé os golpes que desferes num corpo de que sentirás incomensurável falta.
E é no chão que tu me vês bem, aí dessa tua altura rasteira, mundana, presunçosa.
E não, não acredito no ar que respiro nem nessa ilusão de ti que criaste.
Agora sim, estou zangado.
Não contigo.
Mas com aquilo que me fazes.