Quinta-feira, Maio 12, 2005

Cacos

Sabes aquele amor que te faz esquecer a fome, não ter vontade de acompanhar o campeonato de futebol ou a tua série preferida na televisão, não ver a selecção jogar contra um dos grandes, estar longe, bem longe, naquele lugar onde só nós, aqueles cujo coração é feito de remendos, conseguimos encontrar uma réstia de paz?
Acontece-me muito ultimamente chegar ao final do dia e pensar "não, não houve hoje um único minuto em que a minha mente não tenha sido tua". E assisto, como a uma película branca e negra, à tua chama, que consome o pouco oxigénio ainda restante em mim.

Basta.

Falar de ti cansa mais do que a tua ausência.

Quem me dera poder zangar-me e, esbaforido, atrocidar-te e esquecer-te num momento, falar-te da dor e do desespero, do apego, dos grilhões que me prendem a ti. Mas não penses que fico zangado como em tempos me disseram que era possível alguém ficar, por a dor de não estares aqui ser tão intensa.
Não. Não fico simplesmente zangado ou furioso.
Mas triste.
Destroçado.
Em pedaços e cacos grandes e pequenos.

Esperando que um dia este amor deixe de ser.

Segunda-feira, Maio 09, 2005

Chuva

A chuva continua. Parece que veio para ficar.
Sabias que uma gota de chuva não tem a forma de gota? É esférica, segundo dizem.
Contra-senso, uma gota não ser gota. Tontice, caramba, vinha agora um físico qualquer que se dá ares de finalista dizer que uma coisa não é como a gente a vê. E a Terra... é redonda, não? Tenham paciência.
É disto que o mundo é feito: oxímoros, paradoxos, antíteses. A antítese é o meu recurso preferido, de todos aqueles que implicam contradição. Porque é também aquele que me define, num dito por não dito, uma coisa ser o seu contrário e ainda assim ambas coexistirem facilmente. O eu e o anti-eu. E claro que faz bem à alma, a contradição, porque, na procura da diferença, aproxima estas duas realidades que nutrem entre si um intrínseco relacionamento.

Rufam os tambores.
Aqui, onde o mar se espraia, os búzios cantam um hino à solidão, e as ondas nem chegam a partir, estão paradas, elas, a eternizar esta força que as manda ficar quietas. E tenho de também aquietar aquelas nuvens prenhes e escuras, e os calhaus lá ao fundo, e as pegadas na areia.
O vento corre como um louco. Sim, difundem-se as moléculas dos gases com uma facilidade medonha. E está a roupa a secar à chuva, sim senhor, que isto é preciso muita coragem para uma coisa destas.
O verde do mato como que me fere os olhos, de tão cru que é.
E poderia parar as árvores, se me aprouvesse. Mas não. Quem acenderia nelas uma nova centelha de vida? O Sol? Não, poderia pará-lo imediatamente, simples simples.

São já muitas as noites mal dormidas, as partidas sofridas, com a ideia de mudar um mundo que se quer em movimento.
Volta.
Tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.

Sábado, Maio 07, 2005

Escuro, muito escuro.

É assim, neste silêncio, que eu celebro a chegada do vento que vem do Norte e arrasa a praia. Colosso só e voraz, regurgita a fúria que tenho no nome e faz-me tremer de aguda satisfação . E é contigo que eu festejo a noite, este caldo de dor que é a tua ausência constante.
Tenho saudades do teu cheiro. Do teu rosto perfeito. Desse espelho do verde da floresta e do cinzento do mar. Dessa lua que trazes contigo e me alumia o sorriso por te ter perto. Sinto a falta dos beijos nas palavras, das horas em que o olhar vem fundo, cá dentro, e descobre o mais belo em mim. Como o relógio necessita do tempo, assim eu preciso de ti. E lá onde começa este grito em silêncio nos calabouços da alma, aí acaba o dom de estares presente.

Onde estás?

Terça-feira, Maio 03, 2005

Silêncio

Falta-me inspiração.
Hoje é absolutamente necessário que não haja espírito nem voz.
Estranho.
O dia até nem foi mau de todo.

Segunda-feira, Maio 02, 2005

Segundo

Passam as horas e os dias e eu só penso em ti, porque toda a minha natureza é feita de ti. Preenches-me os momentos vagos e os ocupados, derrota-me esta vontade de sermos só tu e eu, aqui, onde apenas essa completa unidade faz sentido. Quando estás perto, a Energia em mim é renovada, esta força que vem de dentro e que é razão para que eu te ame.
Como dói, ser este espectro alimentado por raras e fugazes visões do teu corpo e, ainda assim, eternas memórias da alma que te habita o âmago!

Eu sofro como poucos, tenho a certeza.

E desejo ardentemente que também tu, um dia, experimentes o ermo de se fazer nada pelo outro, de viver o outro na sua vontade, de ser o outro, ainda que preso no teu corpo. Percebes o que digo? Compreendes esta fenda profundíssima que me abriste no tino e me faz andar ao sabor da tua maré, crendo num silêncio gritante que será possível, um dia, não apenas eu ser tu, mas também tu estares em mim?
Complicadinho, não achas?

É, eu sou assim.

Domingo, Maio 01, 2005

Há tempos ouvia alguém dizer: «sou como a noite». E num repente me apercebi de que também eu, quando quero, sou noite. Uma noite fria, escura, feita de grande nada e pequenas coisas. Mas sei também que nem tudo é negro e vazio, e o Sol nasce sempre no dia seguinte, e a dor pode transformar-se em múltiplas ressurreições.

É a moda, ter um blog. Pois que seja. Que mal há na moda e nessa necessidade de se ser mais parecido do que diverso? E aqui está o meu, o meu blog, ínfimo contributo nessa dimensão cósmica que a Internet assume.

Será feito de palavras corridas e ligeiras, macambúzias, exultantes, perenes e cortantes, despidas, presunçosas, pretensiosas, pretas e corrosivas, corroídas e doentes, subreptícias, efémeras, belas e compostas, alegres, dormentes, vermelhas, azuis como o mar, luminosas, basta de adjectivos, caramba, que isto nunca mais acaba, e serve o nome para definir a palavra, a palavra é substantivo.

Será também construído de silêncios e devaneio, uma carta que começa hoje e que intende reflectir este rubor fervente que há em mim e que é um sentimento de ti.

"É tempo de ser". Era o que faltava, se o não fosse.